Quando se fala em inteligência artificial, o sentimento que ainda domina boa parte dos profissionais que trabalham em empresas é o medo. Medo de ser substituído, de perder a relevância, de não conseguir acompanhar.
Quando se fala em inteligência artificial, o sentimento que ainda domina boa parte dos profissionais que trabalham em empresas é o medo. Medo de ser substituído, de perder a relevância, de não conseguir acompanhar. Esse temor nasce não apenas da velocidade da inovação, mas também da desinformação que cerca o tema e, em meio a manchetes sobre automação e demissões em massa, é natural que o futuro do trabalho pareça ameaçador.
Mas a verdade, no entanto, é outra. A tecnologia não vai acabar com os empregos, e sim mudar a lógica do trabalho. O que está em jogo não é o fim das profissões, mas uma redefinição profunda dos papéis humanos, uma transição de criadores para curadores, de executores para estrategistas, de operadores para decisores.

Esse é o ponto central da transformação: a IA executa, e o humano interpreta. Seremos cada vez menos operadores e cada vez mais “human-in-the-loop”, profissionais que supervisionam, corrigem e garantem propósito à inteligência artificial.
Esse movimento pode gerar desconforto, sobretudo para profissionais que veem na criação a sua identidade. Um desenvolvedor que vê seu código como arte sente frustração ao deixar de “criar” para apenas validar. Em vez de substituir o ato criativo, a IA nos convida a redescobrir o que significa criar, não mais apenas pela execução, mas pela interpretação e pelo impacto.
Enquanto algumas funções serão automatizadas outras, as essencialmente humanas, se tornarão ainda mais valiosas. Cuidadores, artistas, educadores e massoterapeutas, entre outros, continuarão representando o que nenhuma máquina reproduz: a sensorialidade, o cuidado e a empatia. Em um futuro próximo, é possível que vejamos um selo de autenticidade em produtos e experiências: “Feito por humanos.” Esse símbolo pode carregar não apenas um valor comercial, mas também emocional e ético, lembrando que a singularidade humana continuará sendo o maior diferencial competitivo.

Mas esta transformação do trabalho não pode depender apenas de indivíduos. Ela exige políticas públicas, regulação responsável e estratégias de requalificação, pois, se os ganhos de produtividade com o uso da IA não forem acompanhados por uma educação inclusiva, corremos o risco de aumentar desigualdades. O futuro do trabalho será sustentável apenas se for coletivamente inteligente, com Governo, iniciativa privada e academia atuando em conjunto.
Para que essa mudança seja real e inclusiva, é preciso democratizar o conhecimento sobre IA. No Brasil, 17% dos formados no ensino médio e 12% dos graduados são analfabetos funcionais segundo o Inaf, e o país lidera o ranking da OCDE em dificuldade para diferenciar fatos de fake news. Esses números mostram que a base cognitiva necessária para interagir criticamente com a tecnologia ainda é muito frágil por aqui.
Não basta ensinar a usar ferramentas, é preciso ensinar a pensar com elas. A educação do futuro deve promover uma alfabetização crítica em IA, que una pensamento computacional com capacidade de questionar decisões automatizadas. Essa é a essência da educação para a expansão humana: formar pessoas capazes de compreender a lógica dos sistemas que moldam seu mundo.

